'Foi rápido', diz morador que filmou carcará com quero-quero nas garras; veja
18/03/2026
(Foto: Reprodução) Carcará é flagrado predando quero-quero
Um registro recente flagrou uma interação difícil de ser observada na natureza: um carcará (Caracara plancus) predando um quero-quero (Vanellus chilensis). A cena foi captada por Miguel Veronez, que acompanhou o momento exato em que a ave de rapina capturou a presa em um condomínio de Franca (SP).
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“Foi do nada. Eu estava trabalhando quando escutei aquele alvoroço dos quero-queros. Quando saí, o carcará já estava em cima. Foi rápido, durou cerca de dois minutos”, conta Miguel.
Para o ornitólogo Fernando Igor de Godoy, o comportamento chama a atenção porque o carcará, apesar de ser um falconídeo, não é um caçador especializado.
“Ele é uma espécie de falcão, mas não caça como os outros. Geralmente se alimenta de animais mortos, ou seja, carcaças”, explica.
Carcará é flagrado predando quero-quero
Miguel Veronez
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Estratégia oportunista
De acordo com o especialista, é comum ver carcarás acompanhando urubus para encontrar alimento. Como os urubus possuem olfato apurado — característica rara entre as aves —, os carcarás os seguem para localizar carcaças.
Por esse motivo, a espécie é frequentemente vista às margens de rodovias, alimentando-se de animais atropelados (hábito necrófago). “Eu já tinha visto o carcará predar outras espécies, mas que já estavam debilitadas. Essa ação de caça ativa foi a primeira vez”, relata o autor do flagrante.
O próprio ornitólogo Fernando Godoy recorda um caso semelhante que presenciou há alguns anos. “Observei um casal de carcarás perseguindo e matando uma garça-vaqueira. Achei muito inusitado”, conta.
Essas observações, somadas a registros de colegas com outras espécies, como o coró-coró, resultaram inclusive na produção de um artigo científico sobre a predação ativa na espécie.
Carcará é flagrado predando quero-quero
Miguel Veronez
O desafio da identificação
Segundo o pesquisador, muitos registros anteriores mostram carcarás com animais já debilitados ou agonizando, o que dificulta saber se houve uma caça real ou apenas o aproveitamento de uma oportunidade.
“Às vezes vemos o carcará com um animal semimorto, mas não sabemos se ele o abateu ou se apenas aproveitou que ele já estava ferido”, explica Godoy. Eventualmente, a espécie pode capturar pequenos animais, como lagartos e filhotes.
A arma das aves de rapina
Talha-mar atacando um carcará que roubou seu ovo, no rio Negro, Pantanal de MS
Daniel De Granville Manço/ Arquivo pessoal
Ao contrário do que se imagina, o bico não é a principal arma de ataque dessas aves. Nas águias e gaviões, a captura e a morte da presa ocorrem por meio das garras. O bico curvado serve apenas para dilacerar a carne posteriormente.
Um exemplo clássico é a harpia, que possui garras extremamente fortes para capturar macacos e outros mamíferos. No caso do carcará, no entanto, essa adaptação é menos desenvolvida.
“Ele tem unhas afiadas, mas não tem aquelas garras feitas para capturar e matar como outros falcões. Por isso, quando caça, normalmente é de forma oportunista”, finaliza o ornitólogo.
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