Da Arábia para o interior: como a viola se tornou símbolo da cultura caipira
27/04/2026
(Foto: Reprodução) Da Arábia para o interior: como a viola se tornou símbolo da cultura caipira
Símbolo da cultura caipira e alma dos "modões" sertanejos, a viola viajou um longo caminho até se consolidar no interior do Brasil.
Segundo pesquisadores, a jornada do instrumento começou no mundo árabe, passou pelos castelos medievais de Portugal e cruzou o oceano nas caravelas para, séculos depois, dar voz ao trabalhador do campo e origem ao gênero musical mais ouvido do país.
O pesquisador Romildo Sant'Anna, doutor em cultura caipira pela USP, explica que a viola descende do alaúde, um instrumento árabe que era tocado para a aristocracia medieval. Com o tempo, ele se popularizou e ganhou versões mais rústicas.
“Esse alaúde a canivete, popular, muito rústico, é a origem da vihuela, que depois deu origem à palavra viola”, explica.
Com a forte presença árabe na Península Ibérica (hoje Portugal e Espanha) entre os séculos VIII e XIV, o instrumento se tornou popular entre os portugueses e, consequentemente, chegou ao Brasil nas caravelas.
“Na carta de Pero Vaz de Caminha ele não cita a viola, mas é possível que ela ou as cordas dela tenham vindo zunindo no vento do oceano Atlântico e entrou aqui, no nosso país”, afirma Sant'Anna.
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Grupo de viola caipira
Marcello Ferreira
A voz do caipira
No Brasil, os jesuítas foram os responsáveis por difundir a viola, usando a música para catequizar os povos nativos. Assim como na Europa, o instrumento se popularizou e começou a ser fabricado de forma artesanal, ganhando características regionais.
A nordestina, por exemplo, tem uma caixa de ressonância maior, enquanto a caipira tem uma “cintura” mais fina.
No final do século XIX, a viola encontrou seu principal personagem: o caipira, trabalhador das roças que dividia a rotina entre o trabalho duro e o lazer ao redor da fogueira. Foi nesse ambiente que surgiram as modas de viola, com letras que contavam as histórias do campo.
"A moda caipira conta histórias", afirma Sant'Anna. Essas narrativas viajavam com os boiadeiros, que, segundo o pesquisador, "não traziam só as notícias, mas também a poesia, novas músicas e novas composições".
Surgimento das duplas e gravação em disco
O canto em dupla, uma das marcas do sertanejo, também tem origem na catequização jesuíta. Como não era possível levar corais inteiros para a roça, a estrutura musical foi reduzida a duas vozes, uma mais aguda e outra mais grave.
"A voz aguda imita a voz da mulher, porque a mulher não podia cantar, ela não saía de casa, era outra realidade. Então você tem uma redução do coral da igreja, que é cantar em dupla”, explica Sant’Anna.
A grande transformação veio com a tecnologia. Com a chegada do disco, os violeiros precisaram adaptar as longas modas de viola para canções de poucos minutos.
Em 1929, o pesquisador Cornélio Pires produziu a primeira gravação de música caipira: "Jorginho do Sertão", da dupla Mariano e Caçula. A canção tinha apenas três minutos, mas foi o suficiente para criar e influenciar por décadas o gênero musical mais ouvido do país: o sertanejo.
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